sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Ciranda de Foucault

Tema da semana: desejo

Na esperança de se tornar mais humana, ela fez um curso de Humanas e passou a graduação se deleitando com Foucault. Curtiu aquela coisa de relações de poder e quis brincar também, entrar na roda - embora ela já devesse estar cirandando sem saber, como tantas vezes fazemos.

Se formou e a vida na mesma. Um dia, porém, descobriu-se interessante. Se olhou no espelho: poxa, nem era tudo aquilo. Mas então porque os homens paravam para vê-la passar? Era alguma outra coisa que ela tinha, mas não sabia[m] dizer o que era. Todavia, nunca fora muito de explicações ou reflexões. Resolveu esquecer que já tivera um coração e foi colocando-os na roda. Quisa saber quem sabia dançar no seu passo.

Foi aos poucos se descobrindo - e descobrindo seu corpo de tecido e pudores. Seus amigos jogavam War  e ela jogando outro jogo já - que tinha um pouco de belicismo de qualquer modo. Sadismo declarado e sincero e honesto. Tinha talento para tânatos. E as suas mãos, a sua boca, o seu corpo tinham uma vocação para o prazer.
Era aquele incandescência tomando conta de tudo. Primeiro, decidira ser feliz por birra, por vingança, para contrariar as probabilidades. Depois, foi feliz sem raiva, por aquela sua transbordância de pernas e cabelos. As costas, nuas. A pinta na nuca que adorava ser beijada. Suavemente. Seu jeito de deixá-los desejantes com um simples olhar naquele rosto de santa sem pretensões. As suas eram todas, mas fingia, brincava.

 E tinha umas coisas que ela bem sabia fazer. Muitas coisas na verdade. Mas deixava tudo semi-velado. Luz de velas. Aquele jogo entre o que mostrar e o que esconder. Conduzia-os para as sombras e dele fazia o que queria. Isso quando e se queria. Porque na maior parte do tempo, provocava. Zombava. Por essa época, aprendeu a brincar de esfínge: Decifra-me ou devoro-te. Acabaria sempre em canibalismo.

Mais prazer do que os gritos roucos colhidos entre quatro paredes e o olhar ébrio de seus escassos amantes, só mesmo quando se mostrava inatingível para os que não quisesse. E eram muitos. Arrumava-se para eles, vestia-se para eles, para que a desejassem como bem o sabia fazer. E não precisava de muito. De quase nada, na verdade.

E os seus olhos de ressaca, cuja crueldade era a de uma criança, diziam com ternura:

- Olhe mesmo, olhe bem, pode olhar: não vai nunca passar disso.

5 comentários:

Carolina disse...

Olhos de ressaca? Rs...

Essa aí brinca com o desejo mesmo. E com fogo também. Ai de quem não sabe brincar e se atreve a entrar nessa roda...

;)

renatocinema disse...

Olhar, War......só boas lembranças.

Dai disse...

O probrema dos jogos é sempre o mesmo. Quando pensamos que estamos dominando, aparece um novo jogador e nos leva todas as fichas.

bjo

Ana B. disse...

é um conto, e como um conto, tá lindo.
mas se fosse minha amiga, eu n ia curtir. nao gosto de gt q passa vontade nas pessoas por prazer, e deixa os outros na seca. kkk

Elaine disse...

É aquele lance: "um dia da caça, outro do caçador", mas quem disse que ela não iria gostar de inverter os papéis?!