quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Desejo, esse conhecido



O desejo é um laço dado por nós, que quando feito a quatro mãos ata um nó tão apertado que não é à toa que o nomeiam cego. O desejo pode ser lascivo, pernicioso, maléfico, mau condutor. O desejo pode fazer você esquecer quem você é. Quem é o outro. Quem você era e quem pretendia ser. O desejo pode ser o seu reflexo mais grotesco. Ele pode sorrir convidativo mas te mostrar que o inferno é logo aqui. Ele dá o falso controle das drogas. "Paro na próxima dose" é o que você diz olhando o seu vômito. O desejo faz você esquecer que a sua realização pode ser rápida com uma ejaculação. Uma gozada. Ter a beleza ofuscante de um raio e também sua brevidade. Ele pode te manipular ao ponto de você convidá-lo à mesa e o apelidar de meta. Sonho. Ideal. Amor. O desejo pode ser a sua cara amassada no outro dia refrescando a sua memória de que deveria ter parado na primeira dose. No primeiro beijo. Na primeira peça. O desejo pode ser o sorriso sarcástico de um inimigo íntimo. O desejo te manda uma buquê de flores no aniversário com um cartão simples dizendo: eu sei que você não passa de uma pessoa carente. E só.


                                         

8 comentários:

renatocinema disse...

Amei suas definições sobre o desejo.

Todos temos os nossos. Sejam ele bons ou ruins.

Eu, por exemplo, desejava ser o fotógrafo dessa bela imagem do texto.

Atitude: substantivo feminino. disse...

Eu acho que os desejos dão de fato um tapa na cara das pessoas carentes. Bem como vc escreveu.
E eles sempre voltam.

Carolina disse...

Você tá muuuiito má! E se são mesmo "tapa na cara das pessoas carentes", os desejos, como disse a Atitude, eu me senti completamente estapeada.

Dai disse...

O desejo, sobretudo o carnal, não pode fazer ninguém perder de vista o próprio caráter. Não há prazer que pague um risco sequer, na nossa autoestima. Quando a gente cede ao desejo impensado, errado, é só a gente que vai sofrer as consequências. A vida dá as cartas e entre elas o desejo, às vezes a gente se arrisca, mas de maneira iludida, sem saber que a aposta era alta demais. O lance era alto demais. O que a gente tinha a perder era alto demais.

Luna Sanchez disse...

Dai, na minha visão o desejo só causa estragos quando misturado com outras drogas como vaidade, orgulho, ciúmes, raiva e a maldita carência, que tu citou brilhantemente.

Tiro o chapéu pra esse texto, verdadeiramente intenso (sim, porque o que tem de falsa intensidade nesse mar "internético" é de dar enjoo...).

Adorei, adorei! É pra imprimir e colar na parede. Esqueçamos de nos olhar no espelho antes de sair de casa pela manhã, mas não esqueçamos de reler essas linhas.

Um beijo, parabéns!

Ana B2 disse...

Eu gostei muito, Dai.
O texto todo ficou bom, mas a primeira frase já foi de matar.

=)

Jesss disse...

O desejo esta presente em todos os momentos, ele simplesmente fica muito mais forte quando estamos carentes, ai sim vemos se somos verdadeiramente fortes ou enganamos a nós mesmos.
Amei o texto!!^^

Elaine disse...

Já tinha lido seu texto e gostado muito, só não comentei por falta de tempo, mas sabe de uma coisa?! Tudo verdade! Até assustei de tão verdadeiro!