quarta-feira, 18 de maio de 2011

Escolha: te pegarem ou te comerem?

Tema: "O destino baralha as cartas, e nós jogamos" 
Schopenhauer 

A ideia de que somos livres para escolher advêm, em maior parte, da concepção de livre arbítrio que nós, ocidentais de base cristã, possuímos. 

Podemos escolher porque esse foi um “privilégio” que Deus deu a nós.

Ok.

O fato é que nem todos (nem os cristãos) concordam sobre isso, o próprio Martinho Lutero não concordava que tínhamos livre arbítrio, para ele quando Adão e Eva pecaram a Humanidade foi separada de Deus e o que a morte e ressurreição de Jesus possibilitou foi a restituição entre Deus e os homens, mas é Deus quem escolhe quem será salvo. Sendo assim, Lutero (e outros) acreditava na predestinação (o que uma enorme parte dos “protestantes” de hoje ignoram).

Bem, eu acho interessante como hoje em dia a gente consegue conciliar Destino e escolha, a gente achar que as duas coisas são possíveis. Ter uma escolha não é o mesmo que de fato ter opções. Se há quem embaralha as cartas e as distribui, de certo forma, nós temos a escolha da jogada, mas as cartas são limitadas. E ainda mais, há sempre a possibilidade de se jogar com cartas marcadas.

Eu me lembro dos meus tios jogando truco. Quem decidia a rodada era sempre quem embaralhava e, às vezes, quem cortava o baralho. Eles sabiam com quem ia sair as cartas boas e com quem ia sair as ruins. De vez em quando algo saia errado e ele sabia que o jogo que ele tinha programado para sair com o parceiro dele tinha saído com o oponente. E daí ele não exitava em “correr” quando alguém pedia truco.

Os gregos acreditavam em Destino e os seus heróis trágicos não conseguiam nunca fugir ao destino traçado a eles pelas Moiras. E quando alguém acreditava que podia mudar o destino e de fato a estória parecia ter mudado de rumo, a atitude tomada, no futuro, se mostrava como mais um passo para que o Destino se concretizasse (vide Édipo).

Há momentos em que eu acredito que a gente possa fazer e mudar nossa história. Mas em muitos outros eu acredito que a gente esteja apenas dançando uma coreografia marcada desde a eternidade mas achando que estamos improvisando.

Apesar de acreditar nessa dança que somos fantoches, ainda acho é possível burlar o coreógrafo e fazer alguma coisa sair do ensaiado, assim como ocorria no jogo de truco com meu tio, mesmo que o coreógrafo espere o próximo ato (rodada do jogo) pra que tudo volte ao ensaiado.

“Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come” – apesar de parecer escolhas, que diferença faz se no fim você vai se dar mal?

11 comentários:

Rafael disse...

Dai, parabéns!
adorei o seu texto. Mesmo sabendo que, às vezes, tudo tende para que o ensaiado aconteça, por fim acho que são esses momentos, onde uma chama de fé e esperança prevalecem, que fazem com que não nos tornemos apenas meros expectadores de um jogo em que, como vc disse, há cartas já marcadas, e busquemos mudanças que de fato satisfaçam a, quem sabe, nossos espirítos.. Adorei! ótima reflexão!
bjs

Gustavo Micheletti disse...

Se correr, ora, o bicho precisa pegar pra depois comer. Se ficar ele come sem esforço. Simples assim. bora correr.

Dai disse...

É essa a questão, Gustavo.

A questão é que ele vai pegar, cedo ou tarde (segundo o ditado). A diferença é que correndo você estará cansado na hora que for comido. :P

Ou não...rs

beijo!

Gustavo Micheletti disse...

Bem, se ele pegar tarde, pode ser o tempo de uma vida, então você estará no lucro. No entardecer da vida estamos todos cansados mesmo e daí não precisaria ser lá um bicho muito arguto para nos pegar, qualquer bichim nos pega nesse caso.

Dai disse...

Gustavo,

hahahaha

sempre certo ;)

beijo!

Alline disse...

Quero acreditar que dá pra distrair esse coreógrafo, que posso criar passos novos e colocá-los na coreografia, e que ninguém vai notar. E se notar vai achar que ficou ótimo, coube perfeitamente.


Se for pensar que não tenho escolha vou morrer de tédio...

Beeeeeijo, Dai!

disse...

Não tem jeito. Nós temos que dançar
Durante a dança, podemos seguir a coreografia que os demais estão dançando, ou fazer os nossos próprios passos e assumir os riscos.
Nossa "faixa de livre arbítrio" é essa. Como diria Sartre, o ser humano é condenado a ser livre, e isso pode ser angustiante.
Mas, independente desta liberdade, temos que dançar!

Carolina disse...

Dai, seu texto ficou muito bom!!!
Eu preciso da ilusão de que vou correr, o bicho não vai me pegar e se ele pegar, vai ser até bom.

Enfim... essa é uma ótima reflexão, justamente porque nos deixa assim meio perdidos.

Meu texto sai hoje ainda, prometo.

Beijos!
:)

Elaine disse...

Gente! Esse assunto dá tanto pano pra manga! rsrs...
Lendo os textos dessa semana percebo que "só sei que nada sei" rsrs...

Carolina disse...

Tem razão, Elaine!
Também fiquei com essa sensação...rsrs

Alê Xavier disse...

Se é pra se dar mal, então que o bicho (me) coma!

;*