sexta-feira, 27 de abril de 2012

Longe

Tema:  Inalcançável você

De manhã, ele a via passar pela rua. Serena e sóbria e sensível. Já tinha notado como os pêlos de sua nuca se arrepiavam quando passava uma brisa mais fria, certa vez, atrás dela numa fila de cinema. O cachecol escondia o pescoço dissimulado. Unhas azuis. Os cabelos curtos e bagunçados e cheio de nuances de cores. Teria seu humor tais nuances também? O sorriso desarmaria até o mais belicoso ser. Queria saber como eram os pés escondidos dentro dos coturnos escuros, tão pesados e contrastantes com o rosto delicado. Seriam também azuis as unhas dos pés? Que segredos ela esconderia atrás da orelha esquerda - brinco de pérola? Queria saber do seu gosto, porque o cheiro conhecia - a mesma fila de cinema. Queria saber como era aquela voz, conhecer suas palavras, vícios de liguagem, erros de gramática. Queria lê-la como quem lê a bíblia.

De tarde, ela o via passar pela rua. Grande e robusto e imponente. Um sorriso sagaz. Passos duros, mas gestos macios. Olhos noturnos e questionadores e cheios de promessas. De quê? Ela queria tanto saber... Seu rosto era marcante. A barba por fazer, sempre sempre. O all star verde e sujo de cadarços amarelos. Patriota? As veias azuis dos antebraços, a pele clara. Um pequena cicatriz acima da sobrancelha direita. Seria de skate ou bicicleta? A orelha furada, lóbulo rechonchudo e mordiscável. A tatuagem de flor-de-lótus. Busdista? Devia gostar de chocolate meio amargo, certa vez o tinha visto comprar três caixas no mercadinho do bairro. Queria saber qual era o seu signo e seu ascendente. Queria saber como devia ser ser tocada por aquelas mãos que pareciam poder tomar conta do mundo. Queria saber como devia ser a sua risada, porque o sorriso já conhecia.

De longe, embora tão perto: na mesma rua, mas em mundos diferentes eles tinham se colocado.

Durante o dia, sonhavam um com o outro. À noite, encontravam-se em sonhos.

2 comentários:

Carolina disse...

Essas distâncias que a gente mesmo cria... sem saber que está tudo tão perto.

Adorei!
:)

Nara disse...

O poder da fantasia! A gente alucina tanto nessa vida...