sexta-feira, 25 de março de 2011

Virei a canoa sim e daí?

Existem muitas maneiras de bater o pé, se impor e dizer "tô aqui". Eu particularmente não tenho tamanho, minha fisionomia não é nada ameaçadora e meu olhar também não é mortal, o que é uma pena. Então me uso de outros meios e sou relativamente bem sucedida. Mas eu sinto muito a diferença de tratamento que dão entre homens e mulheres. Bom, mas não é disso que eu quero falar.

Eu não sei se sou feminista. As pessoas que me conhecem dizem que sou sim - e muito. Eu já não ligo muito, acho que é só mais um rótulo para ostentar. Mas se tem uma coisa que eu aprendi é a bater o pé e erguer a voz. Luto pelo que acredito, me revolto mesmo e rodo a baiana. Como uma dama, naturalmente. E se tem outra coisa que aprendi é a ser razoável. E deixar o radicalismo de lado.

Não, os homens não são os culpados por todos os males do mundo. Isso é óbvio, mas muitas mulheres não percebem isso. Eu consigo tocar a canoa sozinha, aliás, prefiro isso a ter companhia que reme na direção oposta, como já aconteceu tantas vezes. E se eu virar a canoa? Bom, virei, né, fazer o quê? Não adianta achar que só porque sou mulher e tenho séculos de repressão atrás de mim posso olhar com desdém e dar ombros para as coisas erradas que fizer - e achar que eu sou melhor e estou sempre certa  pelo simples fato de ser mulher. E se fosse um homem que tivesse virado a canoa? Será que eu não teria agido tão negativamente quantos muitos homens agem quando as mulheres viram as canoas?

Por mais que eu defenda meu espaço, minha identidade feminina livre de qualquer cabresto, sou obrigada a admitir: não sou melhor do que ninguém. Nossa identidade é construída em parte por conta do gênero, imagino, mas ele não define de modo algum se sou uma pessoa boa ou má, por exemplo.

"Virei a canoa sim e daí?" me soa como birra. "Tô nem aí" ou "Fiz porque quis e daí?". Não é assim que funciona, pelo menos não deveria.Vivemos num mundo onde, querendo ou não, dependemos uns dos outros. Não adianta eu fazer o que quiser e não pensar que isso tem consequencias. É o caso da TPM. Sei que é um período no qual os hormônios ficam a flor da pele e tudo mais.... MAS não é desculpa para sair atirando para todos os lados e doa a quem doer! "Virei a canoa sim e daí?" é isso, uma imposição sem reflexão. Errei, falhei e sou incapaz de assumir meu erro com humildade:

- A canoa virou foi por causa da menina que não soube remar.

- Virei sim e daí? (Viraria de novo!)

Mas poderia ter sido:

- É, virei mesmo. Preciso praticar mais.

Se homens e mulheres trabalhassem em sistema de parceria as coisas seriam muito melhores. A famigerada Guerra dos Sexos já perdeu a graça faz tempo - se é que um dia teve. Do mesmo modo que não gosto das rodinhas onde homens expõe suas opiniões politicamente incorretas sobre mulheres, não gosto das rodinhas femininas que fazem o mesmo. Abomino o tratamento masculino no melhor estilo "mulher-objeto" do mesmo modo que abomino as mulheres que tratam homens como pedaços de carne.

4 comentários:

Carolina disse...

Tem toda razão, Frau!
Antes de homens e mulheres, somos seres-humanos, temos sentimento. Temos sim nossas peculiaridades provenientes do gênero, mas nada que nos torne melhores ou piores.

:)

cantoemsilencio disse...

texto muito bom.
concordo plenamente. =)
Vinícius

Mari disse...

Demais o texto! =)

Gabriel H Pantoja disse...

Quando a canoa vira, vc pode aproveitar e fazer uma revisão no casco :-P