sexta-feira, 18 de março de 2011

Austen. Jane Austen.

Durante a faculdade, estudei literatura inglesa por dois e uma das escritoras que mais me encantou foi Jane Austen (1775-1817). Na verdade, antes disso, eu já tinha me deleitado com Orgulho e Preconceito, um de seus romances mais famosos, pois havia ficado curiosa com a referência feita à obra no filme Mensagem para você (1998). Orgulho rendeu série na BBC e inúmeras versões para o cinema, sendo a última de 2005.

Jane Austen viveu numa época bastante difícil para as mulheres. O trabalho fora do lar não era bem visto, embora muitas vezes fosse a única opção para não se passar fome. Não restava muita coisa a mulher se não casar. E casar bem, já que o casamento, antes de assunto do coração, era um contrato social que definiria o resto da vida de uma mulher. Ah! Além disso, mulheres não herdavam propriedade. Para isso era necessário um homem na família.

A única opção válida para uma mulher era o casamento. Ou então, tornar-se uma "tia solteirona" e ficar da dependência de parentes - o que era motivo de vergonha e tristeza. Já nessa época fica clara a diferença entre como um homem solteiro era visto e como uma mulher solteira era vista. A olteira era vista negativamente, é claro, porque, creio eu, não teria cumprido com o seu papel de esposa e mãe - os únicos incumbidos à mulher. Se ela não os desempenha, é um fracasso. Mas afinal, o que uma mulher poderia ser, além de mãe e esposa?

 - Escritora! - decidiu Jane Austen, ainda muito jovem.

Seus romances giram em torno justamente do tema "casamento" e quem não sabe ler sua obra, a encara como "literatura só para mulheres", quando, na verdade, Jane retrata o casamento e todas as suas implicações sociais, os jogos de interesse, o contrato no papel. Porque se o casamento era a melhor carreira para uma mulher inglesa do século XVIII (aliás, não só para a mulher inglesa, mas isso é pano para outro post), por que não abraçá-lo como tal? Por que não escolher um pretendente por quantas libras ele ganha por ano?

O que Jane Austen mostrou em sua vasta obra é que há sempre uma opção: o amor. Longe de serem piegas, suas heroínas buscam o amor, mas não um amor louco, sem freios. Um amor sóbrio e sólido. Mas não de vive só de amor, certo? Então, além de amor, é preciso que o pretendente tenha alguma estabilidade. Mas não se vive só pelo dinheiro, certo? Assim, Jane condena veementemente o casamento por interesse, posição bastante ousada para uma época na qual os sentimentos desempenhavam um papel deveras secundário no matrimônio. Entretanto, ninguém pode viver só de amor, então é preciso ser racional e considerar o lado prático e financeiro também, já que mulheres não deveriam trabalhar fora de casa.

Talvez pareça muito pouco para nós hoje em dia, mas eu realmente admiro sua ousadia ao escrever sobre aquilo o que via (lembrando que escritoras não eram comuns naquela época), ao condenar o casamento por interesse e, ainda assim, ser racional e sóbria o bastante para perceber que não poderia se entregar a uma paixão qualquer que não pudesse lhe dar estabilidade. E quando falo de estabilidade, não me refiro somente a um certo conforto financeiro, mas também a própria constância do sentimento alheio. Admiro seu senso prático, sua racionalidade, mas também o equilíbrio entre esta e a sua sensibilidade. Jane me mostra uma combinação entre razão e emoção.

Longe do discurso "Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço", Jane preferiu permanecer solteira a se casar sem amor. Por conta de alguns desencontros, o homem que amava (e pelo qual era correspondida) se casou com outra mulher. Vejo Jane Austen na minha personagem preferida: Elizabeth Bennet. Leiam Orgulho e Preconceito e vocês saberão o porquê. Bons partidos apareceram em seu caminho, mas como se casar e ferir suas próprias crenças? Sim, a situação para a mulher não era favorável, mas Jane buscou um outro caminho, um caminho só seu, e se tornou uma grande escritora, pintando uma época e seus costumes. Confiram os romances Orgulho e preconceito e Razão e sensibilidade. E uma coisa que me fascina e assusta é que esses romances ainda têm sim muito mesmo a dizer. E sempre que penso nela, sinto que sempre posso buscar o meu próprio caminho.

2 comentários:

Ana B. disse...

Eu adoro Jane Austen, embora não leia seus romances já há um tempo.

Como a maioria, comecei com Orgulho e Preconceito, depois Mansfield Park, Persuasão e por fim Razão e Sensibilidade.

São livros adoráveis, embora eu precise estar em uma fase mais sensível para realmente apreciar a leitura.

Nunca tinha visto por esse lado que você falou, de que se o casamento era uma carreira, era certo avaliá-lo como tal. Achava que ela estava apenas retratando a futilidade da época.

O que chama atenção em Orgulho e Preconceito é o olhar crítico de Elizabeth, de longe é meu livro preferido.

Dai disse...

Então,

[emoticon da vergonha]

Eu nao li nenhum livro dela ainda, apesar de já ter ficado com um sempre na mão para comprar ou emprestar.

Agora fiquei ainda mais curiosa e tentarei lei, ainda esse semestre!

BEIJO