quinta-feira, 31 de março de 2011

Dona Mariquita

Infelizmente, por conta de uma doença degenerativa chamada Demência por Corpos de Levi, de sintomas muitos parecidos com o Alzheimer, se pedirem a ela para contar sua história, ela se perderia. Ultimamente a lembrança mais viva que ela tem é a do falecido esposo. Então, deixa que eu conto!

Dona Mariquita nasceu em 1927 na fazenda do Papai Izaías, nas proximidades da cidade de Valença, no interior do Rio de Janeiro. Vivia lá com a mãe (mamãe Ana), o pai e os irmãos. Foi educada por uma professora que ia até a fazenda ensinar ela e os irmãos a ler e escrever.

Certa vez, em uma festa de Igreja na cidade, conheceu o Moisés Lacerda e se apaixonou. Casou-se contra a vontade dos seus pais. No dia de seu casamento compareceram à cerimônia apenas sua avó, que sempre esteve ao seu lado e os pais do noivo. Mudou-se com seu marido para Paraíba do Sul, onde teve sua primeira filha. Depois foi se mudando para as cidades onde ele arranjava emprego e carregando as filhas. Até que chegou em Congonhas, Minas Gerais e por lá ficou. Moisés foi trabalhar numa mineradora, a Companhia Siderúrgica Nacional. Em 1965 ela teve sua última das 5 filhas, Rita de Cássia.

Moisés era o amor de Mariquita. Por ele, ela fazia de tudo. E ele, um boêmio. Chegava em casa bêbado, frequentava os bordéis da redondeza e não fazia questão de educar as filhas. Mariquita, muito prendada, fazia de tudo para cuidar da família. Vendia bolo, verduras, chouriço; criava porco e fazia panos de prato de crochê. Abriu a pensão Lelé da Cuca, onde alugava quartos para rapazes solteiros que trabalhavam nas minas e servia refeições. Um dia Moisés saiu de casa e foi morar num sítio que comprou com o dinheiro que guardava e nunca ofereceu a Mariquita. E o pior: foi morar com uma prostituta que tirou de um bordel que frequentava. Mariquita ficou sozinha.

Talvez as cinco filhas que ela teve nunca tenham percebido o valor que aquela mulher tem. Talvez elas nunca tenham entendido como ela sofria. Ela tinha sim seus problemas. Gênio forte, difícil de lidar com sua teimosia. Mas foi com seu esforço e sua dedicação que pode oferecer-lhes um lar, boa comida, educação. Talvez não tenha sido a melhor mãe do mundo.

Mas pra mim, é a melhor avó do mundo.

Minha avó Mariquita é um exemplo de mulher pra mim. Uma mulher que nunca foi valorizada como deveria. E o pior: talvez não tenha sido tão amada como amou meu avô. Ama, até hoje, incondicionalmente. Mas ela nunca deixou de tocar sua vida, de um jeito ou de outro. Sei que cometeu seus erros, mas nada que a distanciasse de ser humana, de ser mulher.

10 comentários:

Su Noschang disse...

Realmente sua avó é uma guerreira. Um exemplo de força.
É engraçado como podemos constatar em algumas histórias que vemos ou ouvimos, a força das mulheres de "antigamente" (da época das nossas avós). Hj reclamamos de tudo e não percebemos que nunca passamos a metade do que elas já passaram. E vale lembrar, que hj tudo é muuuuuito mais fácil do que no tempo delas.
Bju!

Dai disse...

Antigamente a vida era outra e as pessoas se viravam como podiam. Hoje a mulher tem muita independência e etc., mas ainda se submete a várias coisas que não deviam.

Sua avó lembrou um pouco minha mãe. A mudança de lugares, o sustento dos filhos, a resistência. É complicado entender como a vida foi dura com as pessoas e como elas tiveram que se tornar duras também.

É um exemplo sim.

beijo

Ana B. disse...

Ai gt, tô chocada com esse sr seu avô! q tosco!

E que mulher maravilhosa sua avó foi... eu tive uma avó assim tb, embora meu avô tenha sido menos sacana, qdo ele morreu minha tia mais nova tinha apenas 4 anos e minha avó ficou com 5 filhos pra criar!

a história dela eu contei aqui ó:

http://no-lipstick.blogspot.com/2009/10/minha-avo-e-as-mulheres-da-minha-vida.html

Madame disse...

Nossa eu entendo esse amor todo pq ja senti isso por algume, que nao merecia nada.
Ela é uma guerreira, e merece todo o carinho de o mundo!

Lindo post!

bjus

Elaine disse...

Exemplos assim realmente merecem ser valorizados, mas infelizmente esse "prestígio" não apaga o que moldou um temperamento mais difícil...

Palavras Vagabundas disse...

Cheguei aqui pelo blog Atitude: substantivo feminino, gostei muito da história de sua avó, principalmente da sua visão; "talvez não tenha sido a melhor mãe, mas foi a melhor avó".
abs
Jussara

Ana Carolina disse...

Adorei seu blog!!!!
Bjos!
=)

Luna Sanchez disse...

Avós me emocionam sempre, Carol.

Beijo, querida.

Mari disse...

linda sua vó! =)

Atitude: substantivo feminino. disse...

Vó é tudo de bom né?
Sinto tanta falta da minha que chega doer. Mas fazer o quê, né..vida que segue.