sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Aberta


Era aberta. Ah, sim, isso ninguém podia negar. Se precisassem de um par de ouvidos para nele despejarem lamúrias ou futilidades, lá estava ela. Se precisassem de um ombro amigo para apoiar a cabeça cheia de problemas, ela estava presente. Se precisassem de um conselho e ela fosse a escolhida, dava conselhos, aos montes, muitas vezes nem sequer utilizados, mas dava.


Era aberta. Ah, sim, isso ninguém podia negar. Um tipo de abertura meio às avessas porque, veja só, estava aberta até mesmo àqueles que, por vocação, hobby, maldade ou simplesmente retardamento mental, faziam um refogado insosso com seu coração. Se prometessem a lua, ela estava aberta a recebê-la, mesmo sabendo que não havia espaço para guardar a lua no seu quarto. Se a tomassem nos braços e roubassem seus sentidos, ela estava aberta a ser despossuída de si mesma, para encontrar-se no outro corpo. Se dissessem que a amavam, então, puxa! Quando falavam em amor, debaixo da aparente armadura que escondia uma lingerie provocante, lá estava ela, aberta. A receber amor, a dar amor, a comer amor, a suar amor. Aberta, de frente, de lado, de quatro.


Era aberta. Ah, sim, isso ninguém podia negar. Até que um dia, num estalo, caiu em si. Deu uma faxina rápida, pôs em caixas as coisas bonitas que não cabiam mais na sua vida. Quem sabe um dia ia querer revê-las, essas coisas bonitas que todo mundo tem na vida. Jogou fora o que só estava ocupando espaço. Essas coisas velhas, borradas e feias que todo mundo também tem na vida. Ficou maravilhada com o vão que se abriu diante dos seus olhos. Comprou um cadeado. E trancou-se.


Era aberta. Ah, sim, isso ninguém podia negar. Mas, agora, carregava uma chave escondida entre os seios. E só se abriria outra vez para o que combinasse com aquele vazio à espera de ser preenchido.

2 comentários:

Daniel Savio disse...

Mas que sentimento é este que combina com vazio e uma chave especial?

Momento curiosidade, apesar de pensar que é amor...

Fique com Deus, menina [P].
Um abraço.

Dai disse...

Já possuir essa chave é um grande avanço. Mesmo assim, não garante que a usemos com eficácia, não é? Vez ou outra acharemos que a necessidade é uma quando na verdade é outra. Muitas vezes identificaremos o visitante como tal coisa e o visitante na realidade é outra..enfim, leva tempo pra ser um bom guardião de chaves.

beijo