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sexta-feira, 17 de agosto de 2012

A um passo da cegueira

"Healing the blind man" (Edy Legrand)
Tema: "Quem não tem colírio usa óculos escuros"

Os olhos vermelhos e não consigo marcar consulta no médico. Pouco importa se é convênio médico particular ou SUS: parece tudo a mesma coisa. Então vou de óculos escuros. É isso?

Quando se escolhe os óculos escuros, se larga a sujeira debaixo do tapete. É simples assim. Você adia uma coisa que, de repente, até pode ser adiada, porque nem sempre a gente está pronto ou disposto a enfrentá-la. Todavia, isso não nos exime de ter que lidar com ela um dia. E o problema é que às vezes o tempo pesa.

Certos tipos de conjuntivite, quando não devidamente tratados, podem levar à cegueira. Preço alto para a negligência? Bom, você escolhe não ver, então não vai ver mais nada mesmo.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

É sempre o pior?


Tema: "O pior cego é aquele que amarra a própria venda"

Será mesmo que o pior cego é aquele que amarra a própria venda? Questiono mas, sinceramente, acho que pode ser o pior sim.

Se é a pessoa que amarra a própria venda, é ela mesma que não quer ver determinada situação, encarar o problema X, não é? É. E quando é assim não há santo que devolva a visão. Muitas vezes “a vendada” prefere ir, tateando, quebrar a cara, a deixar o mais próximo desamarrar a venda.

Daí eu me pergunto: é sempre tão ruim assim se fazer de bobo pra não ver? Muitas vezes é melhor abstrair, dar uma de ceguinha a ter que encarar determinadas situações. Melhor evitar a fadiga, desde que isso não se torne pretexto para sempre fugir dos problemas e responsabilidades.

É, realmente,  quase sempre o pior cego é aquele que amarra a própria venda, pois dificilmente alguém consegue fazer com que ele volte a enxergar. Mas penso além: melhor se fazer de cego por si só do que deixar que os outros façam isso pela gente.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

A vida é minha - a venda também. E o resto?

  
Tema: "O pior cego é aquele que amarra a própria venda"

Uma hora a sujeira debaixo do tapete não pode mais ser escondida. Uma hora o copo transborda e a água alaga o salão. Uma hora o elefante branco começa a sambar e nos tira de dentro de casa. Uma hora nossas tentativas de ignorar o que está lá para ser visto, sentido, vivido ou doído vão serenas pelo ralo. E, mesmo assim, tem sempre aquele que amarra a própria venda, com o máximo de força - o nó apertado. Esconder de si mesmo o que já não pode ser escondido parece ser a missão suprema.

Eu estava traduzindo um livro que retrata uma personagem bem representativa disso: ela esconde a feiúra da vida, escolhe não ver, não encarar uma série de fatos bastante duros. Por um lado, não dá para dizer que amarrar a própria venda é algo criminoso porque, afinal, existe o livre-arbítrio. Por outro, isso, irremediavelmente, vai afetar a vida das outras pessoas sim, porque a gente está na vida de outras pessoas - e elas na nossa. E se elas escolhem amarrar a própria venda e isso interfere na nossa vida? Porque isso vai, irremediavelmente, acontecer também, cedo ou tarde.

A vida é minha - a venda também. Mas e o resto do mundo? Não importa? Entendo que nem sempre a gente está pronto para certas coisas, mas algumas, teremos que encarar o quanto antes, porque de repente elas podem não fazer tanta diferença na nossa vida, mas e na vida dos outros?

Tomei para mim uma nova filosofia de vida: deu vontade e não vai magoar ou incomodar ninguém, então faço e pronto. Nessa história, já mexi com meu cabelo, meu coração, minha cabeça, meus amigos. Mas depedendo do que eu escolho não ver... Bem...

Pode ser o cano do meu apartamento vazando e criando mofo no apartamento vizinho. Pode ser um relacionamento indo de pau a pique e o outro gritando: Nos salve! Pode ser um prazo estourado e as pessoas dependendo de mim. Pode ser eu mesma perdendo tantas chances, por escondê-las e entuchá-las onde puder, esquecendo que as chances que tanto pedimos nem sempre vem bontinhas em papel de carta cor-de-rosa.


quarta-feira, 8 de junho de 2011

Vou depressa/Vou correndo/Vou na toda/Que só levo pouca gente

Tema: o que é sorte e onde encontrá-la

Levanta da cama depressa. Escova os dentes com uma mão enquanto mexe o leite com a outra. Veste a blusa e calça os sapatos ao mesmo tempo. Corre para o carro. O tempo de o portão elétrico levantar é uma eternidade. Pensa em ir lá e subi-lo manualmente, para ir mais rápido. Acelera, acelera e acelera o carro. 

Passa em todos os semáforos amarelos. Tem pressa. A vida não está para brincadeira. Enquanto ela dorme tem milhares de pessoas trabalhando, ganhando a vida, correndo atrás. Ela também tem que correr.

Bate os dedos no volante enquanto espera o semáforo abrir – o único que não conseguiu passar, mesmo no amarelo. Nervosa com a espera não repara o motorista do carro ao lado a olhando. Pesquisando. Curioso. A vida é uma tráfego e ela não pode engarrafar. Corre.

Sobe a escada do escritório em dois e dois degraus. Senta-se na mesa sem objetos, apenas o computador e um bloco de anotações e o telefone. Não gosta de badulaques, ela tem que otimizar o tempo e para isso sua mesa e tudo que precisa tem que ser prático.

Tinha terminado o namoro há 2 anos. Estava consumindo muito tempo. Ficara sozinha desde então, terrivelmente sozinha, aliás. Achava que ninguém olhava pra ela, mas a verdade é que ela não olhava para os outros. Como perceber os olhos dos outros se você nunca olha para os olhos de ninguém?

A vida para ela não sorria. Escorria feito a areia de uma ampulheta. Não se importava, apesar de tudo. Para que perder tempo pensando em coisas tolas como essa? Tinha que pensar em como aproveitar mais seu tempo, melhorias para sua carreira. “Deus ajuda quem cedo madruga”, mas se Deus não existisse pouco importava, nunca contou com a sorte. Para ela quem podia controlar sua vida era apenas era – mais ninguém.