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sexta-feira, 27 de julho de 2012

Porres homéricos

Tema: cachaça e suas variações de sentido.

Não sou muito de beber - o que não quer dizer que eu não tenha uma postura ébria diante de certas coisas. Ah sim! Certas coisas pareciam me deixar quase fora de mim.  Qualquer coisa docinha e ficava alta. É isso? Que raios de resistência era essa que eu tinha à bebida? Resistência nula. E aí você se embriaga com a primeira meia dúzia de coisas agradáveis que te apetecem. Muito maduro.

Sei lá, é bom estar fora de si de vez em quando. O corpo solto, a mente livre. Mas eu vejo o preço que a gente paga por baixar demais a guarda, por decidir mudar a regulagem do auto-controle. Porque o meu auto-controle é uma coisa realmente fora do sério - que de nada adianta se vai mais álcool do que aguenta o fígado.

Hoje eu escolho o que me deixa alta, sem os pés no chão, flutuando, leve. Cuido melhor do meu fígado metafórico, que tem que durar muito ainda. Escolho minha bebida, porque não quero dor de cabeça mais tarde. Não quero o prazer primeiro, sabendo que a dor vem logo em seguida. O contrário eu até toparia. Mas mesmo assim... Porque certas coisas deveriam ser de mão única ou, pelo menos, mais bem dosadas.

Entretanto, acho que nos últimos anos, aprendi a beber. Chega de porres homéricos. Chega de sujeira. Chega de drama. Pois é. Acho que eaprendi a dosar bem: cachaça e água de coco.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

A marvada

Tema: cachaça e suas variações de sentido.



É Zé, nem eu acreditei quando vi. Mas foi desse jeitinho que te contei. A danada me enganou direitinho, Zé. Saía toda tarde dizendo que ia na casa da cumadre rezar o terço. Ah, safada! Desce mais uma da brava aí que hoje eu preciso beber pra esquecer.

 - Vai devagar que essa é marvada hein, Tião.

Marvada? Marvada é aquela sem-vergonha, Zé. Oh ódio que eu tenho naquela mulher. Precisava disso? A vergonha que eu passei, Zé. Eu não merecia isso não. Dei tudo o que ela sempre quis. Enchia ela de presente no fim do mês. Em casa tudo sempre do bom e do melhor. E como foi que ela me pagou? Me deu de troco um par de chifres! Desce mais uma, Zé, que remédio de corno é cachaça da boa. Tem que beber pra esquecer.

- Tião, vai com calma. O mundo vai acabar não. Cachaça não faz homem nenhum esquecer mulher. Pra esquecer mesmo, só quando arrumar outra.

Outra? Pra que outra? Pra me dar o mesmo destino de corno manso? Todo mundo sabendo, Zé. Os vizinhos tudo rindo da minha cara, pensa bem! Quero arrumar mulher nessa vida mais não. Minha mulher agora, minha companheira é essa branquinha mesmo. Que essa aqui não me decepciona, Zé. Essa aqui eu bebo, ela me deixa feliz e me faz esquecer do que eu não quero lembrar. Desce mais uma aí Zé. E pode caprichar, que hoje eu tenho que beber pra esquecer.


terça-feira, 24 de julho de 2012

Toma essa cachaça, Cinderela!


Tema: cachaça e suas variações de sentido.




Encantou-se ao vê-la na fila do cinema envolvendo os dedos em seus cachos dourados. Não resistiu. Aproximou-se, e assistiram juntos a uma comédia romântica. 

Ele não quis se despedir ali, então a convidou para beber alguma coisa em seu apartamento. Ela se conteve um pouco, mas aceitou. 

Já no ap, entre um gole e outro, ele notou a cor intensa do esmalte que ela usava.

_ Vermelho “maçã-envenenada”. Ela disse sorrindo acanhada, e baixou o olhar.

_ Posso provar?

_ Claro! Estendendo-lhes os dedos.

E foi sua última lembrança. Acordou sozinho doze horas depois em seu apartamento vazio. Nem mesmo a Lili, sua gatinha vira-lata, ela deixara para que lhe lambesse as “feridas”.