domingo, 5 de dezembro de 2010

Telefonema


Ele ligou, ela não ouviu.

Ele tentou mais uma vez, ela ficou com preguiça de atender.

Dois dias depois, ela resolveu retornar. Talvez ele estivesse precisando de alguma coisa. Ela não era uma instituição filantrópica, mas ainda tinha humanidade nas veias.

Depois do alô, ele agradeceu pelo retorno e blá, blá blá...

Ela não conseguia prestar atenção no que ele dizia, ela não se interessava mais. Ele não queria voltar, mas ele queria uma amiga. Ela não queria brigar, não queria voltar, não queria um amigo, ela só queria desligar o telefone e rir.

Ela não era fria o bastante para rir enquanto falava com ele, para rir quando ele dizia que a vida dele tinha mudado para pior. Ela não queria contar para ele que a vida dela tinha mudado para melhor.

Ela queria desligar o telefone, rir e voltar para a vida dela. A vida de não sentir falta dele, de seguir em frente e de, de vez em quando, se perguntar: “como eu consegui namorar aquele idiota?”.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Do Sentir


Se você não entende a força das palavras que arremessa na minha direção,


Se não percebe o deboche escorrendo pelo canto da sua boca quando recria mentiras já conhecidas,


Se não se importa com as feridas que causa com olhares em forma de lâminas...


E se não sente a minha dor, se não sente o meu veneno, se não sente quando uma alma goteja o sangue das palavras derramadas, querido... lamento, mas EU sinto. E muito.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Ter alguma opinião formada sobre tudo

O arrependimento cristão é único arrependimento que eu me lembro, assim, pensando de maneira rápida, que faz alguma diferença. Você se arrepende dos seus pecados e é salvo. Bom, fora isso, não me recordo de mais nada em que se arrepender faz alguma diferença. O arrependimento é sempre sobre algo que já foi, que aconteceu, que já foi feito o estrago. Tudo o que vier depois disso é uma atitude de barragem, contenção, minimizar efeitos - só.

Existem certas escolhas em nossas vidas que não importa o quanto você se arrependa, elas irão martelar, martelar e martelar na sua cabeça. Muitas delas irão te ferrar todos os dias te lembrando o quão estúpido você foi, o quão errado estava, ou ambas as coisas. Por isso acho o arrependimento um sentimento cômodo, depois que já foi feito é um pouco fácil dizer que preferia não ter feito.

Não fico remoendo sobre o que fiz, não mesmo. Fico remoendo sobre possibilidades, isso sim. E por quê? Porque chegar no outro dia de ressaca com a cara lavada e dizer que mudou ideia não adianta muito. Expõe você, o outro, terceiros. Expõe o quanto você é infantil. 

I N F A N T I L.

Tem horas que eu acho uma balela a canção que diz: “eu prefiro ser uma metamorfose ambulante”*.


*só às vezes, porque eu adoro o Raul. E sim, eu sei que o contexto da música é outro.