terça-feira, 7 de agosto de 2012

Forma X Função ou seria Cotidiano X Essência



Tema: Como o fato de a gente estar inserida numa cultura machista faz com que tenhamos uma visão distorcida sobre nós mesmas.

Nesta primeira semana de faculdade, tivemos um debate sobre forma x função, eu tinha que defender a forma e até o momento estamos ganhando, mas transferindo esta ideia para o tema desta semana eu me pergunto: “Cotidiano X Essência” o que realmente nós seriamos? Por que afinal de contas estamos inseridos em um cotidiano, em um tipo de vida de pensamentos e de atos, muitas vezes, aliás, na maioria das vezes, totalmente distintos da nossa real essência; e como lidar com isso? Como caminhar com isso de uma maneira que demonstre às outras pessoas que isso não é uma forma de agressão ao outro e sim apenas a sua forma de ser, diferente, único!?


Difícil responder estas perguntas por que se pararmos para analisar até o presente momento quase ninguém tinha pensado neste assunto, muito menos na pauta que ele daria, às vezes não observamos ao redor, não vemos a força que nós fazemos para nos adequar ao meio que vivemos, única e exclusivamente por que ainda não encontramos uma maneira de fazer com que o meio aceite a essência, então seria mais fácil se adequar ao que temos?
Se for fácil ou não, eu realmente não sou a melhor pessoa a dizer, mas que muitas vezes é mais fácil remar a favor da maré... Ah isso é!

“Enquanto você
Se esforça pra ser
Um sujeito normal
E fazer tudo igual...

Eu do meu lado

Aprendendo a ser louco
Maluco total
Na loucura real...”



Raul Seixas – Maluco Beleza


segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Assumir


Tema: Como o fato de a gente estar inserida numa cultura machista faz com que tenhamos uma visão distorcida sobre nós mesmas.



















“Agora é hora de você assumir
e sumir”

Não é novidade para ninguém e a frase é dita por aqueles que possuem a personalidade inconfundível: seja você mesmo. Não parece difícil ser e dizer parece mais fácil ainda, viver como realmente somos deveria ser confortável, simples, seria usar de maneira saudável, feliz e satisfeita o corpo que desfilamos por aí. Seria estar em paz com os pensamentos que formam nosso comportamento e agir de acordo com o que chamamos de nossos valores.
Assumir o que somos sem dúvida alguma nos traz certa paz interior, o sentimento de que estamos sendo sinceros com o mundo e principalmente com o que chamamos de eu, mas ainda assim, por teimosia “natural” do homem, por preocupação cultural e preconceitos formadores de opiniões massificadas, preferimos esconder, mentir e fingir, e isso tudo, sem nem mesmo perceber. Colocamos a máscara e cumprimos um papel social, e só assim somos aceitos, só assim somos classificamos como seres possíveis de respeito.
Acontece que ser e existir de jeito diferente daquele que é padrão é quase uma missão impossível. Crescemos ouvindo que homem não chora, que menina brinca de boneca, que menino brinca de carrinho, mulher bonita é aquela que possui traços brancos, cabelos dourados e lisos, que homem tem que ser forte, que mulher é descontrolada, homem é racional, homem gosta de futebol, novela quem assiste é mulher, que o homem manda, a mulher obedece, que azul é cor de menino, que rosa é cor de menina. A gente cresce ouvindo que normal é pessoas do sexo feminino ter relacionamentos com pessoas do sexo masculino. Regra é regra, conceito é conceito, pré conceitos são pré conceitos e não saia por aí fazendo o contrário, pois o errado é você. Seu papel é um, seu papel não pode ser outro. Seu lugar é este, seu lugar não pode ser outro.
E aí, quando você resolve se assumir como gente, o que te espera? Braços abertos? As comparações já estarão sendo feitas, pois os padrões já existem. Então talvez, ao se assumir, você precise sumir também. Ser invisível e não ser notado como aquele que é “diferente”. Porque vai incomodar, vai doer sair para ir trabalhar pela manhã e ser observado por olhares ditadores, formadores de opiniões, olhares que julgam cada passo, cada escolha que pensam que você faz. Vai doer defender o que é seu. Vai ser difícil olhar no espelho, sentir o coração, se relacionar, se aceitar. Afinal, querendo ou não, você também foi criado nessa sociedade, você também julga e olha torto. Você também tem umbigo. 

domingo, 5 de agosto de 2012

Nem tão presa, nem tão livre.


Tema: Como o fato de a gente estar inserida numa cultura machista faz com que tenhamos uma visão distorcida sobre nós mesmas.




Eu não posso dizer que tive uma educação machista. Eu brinquei com os meninos da rua, e briguei também. Tive estilingue, bola de futebol, dardo, autorama.... E, para tranquilidade dos conservadores, eu tive boneca também. Brinquei de tudo, fiz de tudo. Eu tinha roupas de menininha... Mas tinha também meus bermudões do Mickey e outras roupinhas que normalmente os menininhos que usavam. Meus pais sempre priorizavam comprar  roupas confortáveis, além disso, eles nunca disseram: “agora você tem que parar com isso porque está virando mocinha”. Enquanto algumas mães não deixavam os filhos assistir certos desenhos violentos, ou brincar de lutinha... Eu e minha irmã estavamos lá, dando nos golpes mortais no ar, no pilar, e as vezes uma na outra. Revólver de água também, espingarda de chumbinho também, tudo mais também... Então, eu demorei a perceber que o machismo existia, que aquilo não era o normal. Que as outras meninas usavam mais rosa, que as outras meninas usavam mais saia, que as outras meninas não jogavam futebol...

Na adolescência, eu comecei a abrir meus olhos. Descobri que todas as meninas já falavam de esmalte e eu não ligava pra esmalte. Maquiagem? Até hoje não sei o que é ter isso como religião. Também não ligo pra roupas passadas e quando penso em peso, confesso que me preocupo mais com a tendência familiar a colesterol alto e outros males do que com padrões de beleza e etc.  Ainda assim, tenho meus momentos...

Quantas vezes não respirei fundo antes de tentar falar com um dos senhores do sindicato patronal da empresa em que trabalho...  Quantas vezes me questionei: quero mesmo gerenciar funcionários machistas? Quantas vezes controlei meu modo de falar, quando queria soltar os cachorros, porque não queria perder a razão, porque não queria que minhas queixas fossem reduzidas a uma crise de TPM ou de infelicidade no amor....  Me senti incapaz várias vezes, por pura preguiça de lidar com o machismo nosso de cada dia. Já me senti fraca, porque achei a cultura machista forte demais.

Quantas vezes não questionei se não era meu jeito estabanado e desligado que teria feito o mocinho não gostar de mim? Afinal, nunca fui delicada como dizem por aí que as boas meninas são. Será porque mato baratas sem medo que ele não gosta de mim? Ou porque eu bebo demais e não escondo? Será porque estou acima do peso? Será porque não faço questão de cozinhar? Será porque não sou organizada? Será porque não sou feminina o bastante pra ser interessante?

E fico me perguntando, me perguntando, me perguntando... Até lembrar que já houve quem gostou de mim assim, até lembrar que eu gosto de mim assim, até lembrar que isso é uma bobeira sem fim e sem tamanho e que é melhor estar só do que estar acompanhada de um cara machista.


E se pra mim, que não sou filha de pais machistas, essa ficha demora a cair... Não me é estranha a ideia de que a cultura machista faz muitas vítimas por aí.